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fogueira | oficina de estruturas nômades e ativação do espaço público

A oficina foi divida em uma parte de exposição de idéias e debate, e em um segundo momento a construção. O tema abordado na oficina, estruturas nômades, foi um mote para discutirmos três tópicos:

– materialidade e temporalidade na arquitetura: aqui refletimos sobre a relatividade temporal, a impermanência e efemeridade das coisas. Grandes construções de concreto podem ser implodidas ou sucumbir a terremotos e bombas, construções de madeira e papel podem sobreviver séculos. Ou seja, é atividade humana ou da própria natureza e não os materiais empregados na edificação, especificados pelo arquiteto, que definem a temporalidade. Embora seja possível projetar para que seja temporário ou permanente, a efetividade dessa intenção foge da alçada da prancheta. Alguns exemplos ilustram isso: escolas emergenciais projetadas e construídas em bobinas de papelão pelo arquiteto Shigeru Ban em uma situação pós catástrofe na China, previstas para serem temporárias seguem sendo usadas e a comunidade mantém a atividade, alegando não haver necessidade de algo “permanente”, pois estavam satisfeitos e zelosos do que ali estava.  Ou por exemplo, o Spiral Jetty de Robert Smith, intervenção toda feita em pedras, mas sobre o leito de um rio. Apesar da materialidade identificável como permanente das pedras em uma construção, sua condição o movimento do rio aos poucos desmanchou a composição.

– função social da arquitetura nômade na contemporaneidade:  nesse tópico trouxemos à tona a questão da vulnerabilidade da moradia global, sobretudo nos países em desenvolvimento, com maior exposição aos riscos, com agravamento pela precariedade das edificações. Os desastres, naturais ou antrópicos, causam danos materiais e psicológicos à milhões de pessoas anualmente, e em muitos casos desprovê grande quantidade de pessoas das suas moradias e pertences. É importante que haja interesse dos arquitetos pelos assuntos que concernem a moradia provisória. Os campos de refugiado e os assentamentos humanitários muitas vezes parecem  fornecer apenas as condições mínimas de dignidade, não conseguindo criar um ambiente harmônico e favorável para o convívio daquele grupo como comunidade e sua reinserção social. Aqui também pensando em materialidade e temporalidade, por envolverem conflitos complicados, grande parte dos assentamentos humanitários previstos, projetados e construídos como temporários acabam permanecendo por décadas, o que leva muitas vezes, a precarização da moradia na sua situação transitória, bem como o conjunto de moradias, afetando toda a comunidade afetada.

Discutimos a importância das estruturas nômades em ações de engajamento, ativismo e manifestações, com caráter político ou cultural, como ferramenta de apropriação do espaço público. A arquitetura nômade como ferramenta de apropriação do espaço público se revela possível e desejável. E se manifesta também  em formas estritamente comerciais advinda de investimentos de cima para a baixo, que nada se assemelha com os propósitos antes mencionados, mas sim dizem respeito a tendências sociológicas, mercadológicas e publicitárias. A gourmetização e a gentrificação, nas formas de containers, food-trucks , food-bikes, e parklets,  se apropriando do espaço público para a valorização do espaço privado.

Ilustramos com alguns projetos os diferentes tipos e propósitos da intervenção. Desde obras de Christo, criando planos que interseccionam vales ou envelopam edifícios ou pontes e têm a escala do horizonte e da vista aérea. Ao mesmo tempo, intervenções em escala muito menores como o Cineroleum, do coletivo Assemble de Londres, que se apropria de uma estrutura abandonada de posto de gasolina para criar um cinema comunitário. O primeiro abrangendo a escala do horizonte, criando ruptura com o existente e despertando outras leituras de paisagem.  O segundo a escala das relações humanas e comunitárias de um bairro.

fogueira 

Além de preexistência, um cimentado circular com raio de seis metros circundado por guarda-corpo metálico, a escolha da forma circular para a estrutura tinha dois objetivos dentro da didática. O primeiro deles remonta a questões simbólicas da arquitetura sagrada circular, da arquitetur vernacular circular, bem como as manifestações humanas na forma circular, representando também a convergência, a união e a unidade. Ao mesmo tempo que a estrutura criou um espaço de distinção e privacidade da praça, também tornou-se um referencial. E uma vez dentro, a sensação era a de acolhimento, e também por não ter cobertura, podia se contemplar as copas das árvores.

Durante o processo construtivo a visibilidade permitida pela forma circular se revelou fundamental para a eficiência da construção, auxiliando na comunicação entre as pessoas, facilitando a mobilidade, a disposição das peças pré-fabricadas,  bem como a concentração de componentes e ferramentas no centro da circunferência.

A construção foi executada em cinco horas, desde as primeiras marcações do raio e dos pontos de fundação, até o início da nossa conversa de encerramento da construção.

Ficou instalada na praça por seis dias. Com manutenções e vistorias e sem degradações nem acidentes,  sobreviveu até o sexto dia, quando convidamos os alunos para a desmontagem da estrutura, na prática do desapego e celebrando a impermanência, como idéias inerentes ao nomadismo.

A Intervenção foi montada na ocasião da Semana Viver Metrópole, a convite do DAFAM Fau Mackenzie. Com a colaboração de:

Javier Corvalán, arquiteto, membro do coletivo Aqua Alta professor da Universidad Católica de Asunción, PY.

José Luis Uribe, arquiteto, membro do coletivo Talca professor da Escuela de Arquitectura de la Universidad de Talca,  CL.

 

oficineiros

Guilherme Tanaka, Vítor B. P. Elias

alunos

Marta Garcia Sanchez Infante – Politécnica de Madri, Inés Mino Izquierdo, Patricia Parra Marcos, Lucia Lotufo, Mariana Montag, Patrícia Braga Ribeiro, Sofia Himmelstein, Beatriz Oliveira Paiva, Bruna Gondim de Almeida, Vinicius Costa (dafam), Victória Braga (dafam), Christian Salmeron

out 2017